
“Já ouvi mais de uma vez que minha comunicação é dura demais. Mas, se eu não falo de forma firme, sou ignorada. E aí? Como eu equilibro isso?”
Esse tipo de pergunta chega a mim com frequência nas conversas com mulheres em posição de liderança. E, recentemente, veio de uma mentorada que ocupa um cargo de chefia num banco. Em meio a um ambiente quase todo masculino, ela é a única mulher na diretoria. E sente, com razão, que precisa se posicionar com firmeza para manter o respeito e a autoridade. Ao mesmo tempo, reconhece que essa comunicação dura não a representa mais. E vem tentando encontrar outro caminho.
Eu escuto, compreendo e me reconheço nesse cenário.
Lembro bem de quando comecei minha carreira e entendi, quase que no susto, que ser “boazinha” ou falar de forma suave me deixava invisível. Engoli minha leveza, enrijeci a linguagem, escolhi roupas mais sóbrias e fui tentando me encaixar no que parecia ser a única forma possível de ser ouvida. Era um jogo duro, e eu entrei nele.
Mas, com o tempo (e com algumas dores) percebi que endurecer não me protegia. Na verdade, me afastava de mim mesma e das outras pessoas.
O que está por trás disso?
Em ambientes corporativos tradicionais, especialmente os dominados por homens e pautados pela lógica da performance, a comunicação assertiva costuma ser confundida com agressividade. E o problema não está apenas na cultura da empresa, mas em uma estrutura social inteira que ainda espera que as mulheres sejam agradáveis, flexíveis e “contidas”. Ao mesmo tempo, exige delas firmeza na liderança.
É como caminhar o tempo todo “numa corda bamba”. Se falamos de forma suave, somos vistas como fracas; se endurecemos a fala, nos chamam de mandonas ou difíceis.
Esse duplo padrão é injusto e exaustivo. E força muitas mulheres a adotarem um tom que não condiz com sua essência apenas para “sobreviver” nesse ambiente corporativo ainda marcado por relações rígidas de poder.
Quais os efeitos dessa comunicação endurecida?
Pode até funcionar por um tempo. A autoridade é mantida, os limites são respeitados, e a liderança se sustenta. Mas, com o passar dos dias, esse estilo cobra um preço alto que envolve desconexão emocional, desgaste nas relações, sensação de isolamento e dúvidas sobre quem realmente somos naquele ambiente. E lá se vai nossa saúde mental!
O mais curioso é que muitas das líderes que me procuram relatam que conseguem se comunicar com leveza com seus liderados, mas endurecem com os pares e superiores do sexo masculino. Ou seja, elas sabem modular a comunicação. O problema está no medo, muitas vezes justificado, de que a leveza seja confundida com fraqueza.
Existe outro caminho?
Sim! Ele passa por um reposicionamento consciente da forma de se comunicar. Não se trata de abandonar a firmeza, mas de integrar outros elementos que tornam a comunicação mais humana, inclusiva e produtiva.
É possível, por exemplo, ser objetiva sem ser ríspida, estabelecer limites sem elevar o tom, liderar com autoridade e com empatia, entre outras possibilidades.
Isso não é teoria. Eu vivi essa virada. Um dia, sufocada por me sentir distante de mim mesma, resolvi arriscar. Lá fui eu, do meu jeito. Falei com leveza, fui honesta, usei até gif engraçado no e-mail com um grupo de homens mais velhos, formais e cheios de títulos acadêmicos.
E sabe o que aconteceu? Eles me ouviram, responderam com respeito, foram tocados de um jeito que eu não imaginava e reconheceram que aquele estilo de comunicação — mais gentil, transparente e afetivo — fez diferença em nosso relacionamento. Até os fez repensar a maneira como se comunicavam com outras pessoas, como me disseram mais tarde.
Não foi um milagre. Foi uma escolha estratégica, corajosa e, acima de tudo, conectada com a minha verdade.
Isso não significa ignorar que ainda existem ambientes tóxicos, lideranças abusivas e contextos em que mulheres continuam sendo deslegitimadas independentemente da forma como se comunicam. Mas significa reconhecer que há caminhos possíveis para construir relações mais saudáveis sem precisar abandonar quem somos.
Um convite à autenticidade
Se você é mulher e sente que precisa se endurecer para ser respeitada, saiba que você não está sozinha. Há outras formas de ocupar espaços de liderança que não exigem que você se desconecte de si.
Não é fácil. Requer coragem para olhar pra dentro, abrir espaço para novos aprendizados e ir ajustando o rumo com consciência. Esse é justamente o processo que venho desenvolvendo com líderes e que virou a base do meu trabalho. Chamei o processo de CRIAR, uma metodologia que passa por cinco etapas que envolve conscientização, reeducação, integração, avaliação e ressignificação. Um passo de cada vez, respeitando o tempo, o contexto e a história de cada pessoa.
No fim do dia, ser respeitada sem deixar de ser você mesma é possível e, principalmente, libertador.
Quer conversar mais sobre isso?
Se esse tema atravessa sua vida profissional de alguma forma, podemos continuar essa conversa. Tenho desenvolvido mentorias voltadas justamente para líderes que desejam encontrar formas mais humanas, estratégicas e sustentáveis de se comunicar sem abrir mão de sua autenticidade. Você pode me chamar no LinkedIn ou enviar um e-mail para falecom@suzelidamaceno.com.br. Vai ser um prazer te ouvir!
