
Um estudo recém-publicado na Nature Communications me fez pensar bastante sobre essa pergunta. O artigo Perceived humanness and empathy are dissociated in relationship advice generated by a large language model é assinado por Bennett Kleinberg e outros seis pesquisadores, a maioria vinculada ao Departamento de Metodologia e Estatística da Tilburg University, nos Países Baixos. A equipe também reúne pesquisadores ligados à University College London, à University of Amsterdam e à IMT School for Advanced Studies, na Itália.
A pesquisa começou a ser divulgada em 2024 e foi ampliada até chegar aos cinco estudos apresentados no artigo atual. O trabalho foi submetido à Nature Communications em novembro de 2024, passou pelo processo de revisão científica, foi aceito em agosto de 2026 e publicado em 3 de setembro de 2026
O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras era investigar até que ponto conseguimos diferenciar um texto produzido por uma pessoa de outro produzido por um modelo de inteligência artificial? E o que nos leva a perceber determinada linguagem como mais ou menos humana?
Pessoas e IA escrevendo sobre relacionamentos
Nos dois primeiros experimentos, participantes humanos e o GPT-4 receberam tarefas relacionadas a relacionamentos.
No primeiro estudo, 530 pessoas produziram conselhos sobre relacionamentos. No segundo, outras 610 fizeram descrições de relacionamentos. Dependendo do grupo, recebiam ou não uma orientação adicional para escrever de forma que seu texto parecesse o mais humano possível. O GPT-4 recebeu tarefas equivalentes.
Depois veio uma segunda etapa: outras 428 pessoas no primeiro estudo e 408 no segundo receberam os textos sem saber quem os havia escrito e tiveram que avaliar sua autoria
Ou seja, considerando apenas esses dois experimentos, mais de 1.900 participações humanas estiveram envolvidas entre a produção e a avaliação dos textos.
Os resultados mostraram algo curioso. A orientação para “parecer humano” praticamente não alterou a percepção dos textos produzidos pelas próprias pessoas. Mas fez diferença nos textos produzidos pelo GPT-4. Quando recebeu essa instrução, a IA conseguiu aumentar a percepção de que seus textos haviam sido escritos por gente de carne e osso.
Em um terceiro estudo, com duas novas amostras de 360 e 350 participantes, a equipe de pesquisa testou outras formulações da instrução — como evitar soar como um modelo de IA — verificando, também, o fenômeno usando GPT-4 e GPT-4o. Os resultados reforçaram o achado anterior.
Mas como uma IA consegue parecer mais humana
A análise realizada pelos pesquisadores ajuda a responder. Quando orientado a parecer humano, o GPT-4 passou a recorrer mais a determinadas características da linguagem, como um estilo informal, conversacional e autorreferente e um vocabulário mais simples.
Em outras palavras, o modelo parece ser capaz de reproduzir pistas linguísticas que nós associamos à comunicação entre pessoas.
Parecer humano é o mesmo que parecer empático?
A pesquisa trouxe ainda outra descoberta interessante. Em um quarto estudo, com 219 participantes, a equipe investigou a relação entre humanidade percebida e empatia percebida. E descobriu que as duas coisas não são necessariamente equivalentes.
Os modelos conseguiram produzir textos considerados empáticos sem necessariamente serem percebidos como humanos. E, também, conseguiram produzir textos percebidos como mais humanos sem que isso significasse maior percepção de empatia.
Essa distinção é importante. Uma mensagem pode conter palavras, construções e recursos que reconhecemos como acolhedores ou empáticos sem que exista, por trás dela, uma pessoa experimentando empatia.
O quinto e último estudo, baseado em análise computacional dos textos, ajudou a identificar justamente algumas dessas pistas linguísticas usadas pelo modelo para aumentar a percepção de humanidade.
E o que tudo isso tem a ver com a nossa comunicação?
Foi nesse ponto que o estudo me levou a uma reflexão que vai além da capacidade de descobrir se determinado texto foi escrito por uma pessoa ou por uma máquina.
Se a IA está cada vez melhor em reproduzir os sinais de uma comunicação humana e empática, até onde faz sentido delegar a ela as nossas respostas?
Não vejo problema em usar a tecnologia para nos ajudar a organizar ideias, encontrar palavras ou tornar uma mensagem mais clara. Ao contrário, até recomendo bastante esse tipo de uso.
Imagine, por exemplo, que você precise comunicar uma informação objetiva, por exemplo uma data de evento, mudança de horário, uma orientação operacional, entre outras. A IA pode ajudar a construir essa mensagem com clareza e agilidade.
Mas pense agora em uma liderança que recebe de uma pessoa da equipe uma mensagem dizendo que está frustrada porque não foi promovida. É possível pedir à IA que “escreva uma resposta empática”. E provavelmente ela produzirá um texto muito bom.
Só que produzir uma boa resposta não significa necessariamente compreender tudo o que está acontecendo naquela relação. Qual é o histórico entre essas duas pessoas? Houve alguma expectativa criada anteriormente? Como aquela pessoa costuma reagir? Ela está mais ansiosa ultimamente? Existe uma questão de reconhecimento por trás da frustração? Há algo que não foi explicitamente dito na mensagem? Aquela conversa deveria mesmo continuar por escrito? E como responder se a reação à primeira mensagem for completamente diferente da esperada?
É aí que a comunicação interpessoal se mostra muito maior do que a produção de um texto.
A IA pode nos ajudar a encontrar as melhores palavras. Mas decidir o que precisa ser dito, compreender para quem estamos dizendo, interpretar o contexto e assumir a responsabilidade pela conversa continuam exigindo habilidades humanas.
E, em algum momento, teremos que lidar com a reação do outro lado, muitas vezes sem tempo ou oportunidade de recorrer à IA para nos dizer o que fazer em seguida.
Tecnologia não elimina a necessidade de desenvolver nossas habilidades de comunicação
Esse é um ponto que se conecta diretamente ao trabalho que realizo com comunicação. Nas palestras, treinamentos e mentorias que conduzo, trabalho justamente com o desenvolvimento de habilidades que ajudam as pessoas a se comunicar de maneira mais clara, assertiva, empática e produtiva, como escuta ativa, compreensão de contexto, inteligência emocional, adaptação da comunicação a diferentes pessoas e situações, negociação e condução de conversas difíceis.
A inteligência artificial pode — e acredito que deve — fazer parte desse processo como ferramenta de apoio. Pode nos ajudar a preparar uma conversa, testar maneiras diferentes de dizer alguma coisa, organizar argumentos ou perceber aspectos de uma mensagem que talvez não tivéssemos considerado.
Mas talvez seja justamente porque a tecnologia está ficando tão boa em produzir mensagens que parecem humanas que precisemos desenvolver ainda mais as habilidades necessárias para participar de relações verdadeiramente humanas.
Termino deixando uma pergunta para reflexão: o que da nossa comunicação interpessoal podemos delegar à IA? E quais habilidades precisamos continuar desenvolvendo para conduzir, nós mesmos, as conversas que não deveríamos delegar?
Referência:
KLEINBERG, Bennett et al. Perceived humanness and empathy are dissociated in relationship advice generated by a large language model. Nature Communications, 2026. https://doi.org/10.1038/s41467-026-77350-1
