O que acontece com nossa “musculatura comunicacional” quando falamos menos?

Um homem e uma mulher com trajes formais num elevador panorâmico em prédio corporativo. Estão lado a lado olhando para além do vidro.
Pesquisa indica que estamos falando menos e essa mudança pode afetar vínculos, relações no trabalho e nossas habilidades de comunicação. | Foto de Vitaly Gariev na Unsplash

Você já parou para pensar em quantas palavras deixou de falar nos últimos anos?

Uma reportagem do Estadão chamou minha atenção para um achado curioso de uma pesquisa publicada no Journal of Personality and Social Psychology. O estudo tinha como principal objetivo investigar se homens e mulheres diferem na quantidade de palavras que falam diariamente. Para isso, reuniu dados de 2.197 pessoas, de 10 a 94 anos, a partir de mais de 630 mil gravações de áudio coletadas em diferentes pesquisas.

Mas um achado secundário chamou a atenção da própria equipe de pesquisadores e pesquisadoras. Ao analisar dados coletados entre 2005 e 2018, eles observaram uma redução estimada de 338 palavras faladas por dia a cada ano. No início do período, a estimativa era de cerca de 16,6 mil palavras diárias. Nos estudos mais recentes, esse número havia caído para algo próximo de 13 mil.

A própria equipe alerta que essa análise foi exploratória e que não é possível afirmar suas causas. Mas levanta uma hipótese bastante plausível: o crescimento da comunicação digital.

É fato que estamos nos comunicando o tempo todo, seja por WhatsApp, redes sociais, e-mail, chats no trabalho etc. Mas será que estamos conversando na mesma proporção?

Comunicar não é necessariamente conversar

Nunca tivemos tantas possibilidades de trocar informações. Em poucos segundos, conseguimos enviar uma mensagem para alguém do outro lado do mundo, participar de vários grupos simultaneamente, responder a colegas de trabalho, comentar uma publicação, resolver uma pendência por aplicativo e muito mais.

Talvez até estejamos nos comunicando mais do que nunca. Mas uma parcela importante dessas trocas é escrita, assíncrona e fragmentada. Podemos responder quando quisermos, editar antes de enviar, apagar, reler, interromper a interação e retomá-la mais tarde. Isso não é necessariamente ruim.

A comunicação digital trouxe ganhos enormes de agilidade, autonomia e eficiência, o que é bom. A questão que me interessa é outra: o que pode estar desaparecendo junto com algumas das palavras que deixamos de falar?

A conversa rápida com alguém na padaria, o bom dia para o vizinho no elevador, o papo com quem encontramos passeando com o cachorro ou, no trabalho, aqueles minutos de conversa com um colega antes de uma reunião começar. São interações que parecem pequenas demais para fazer diferença. Mas talvez não sejam.

A importância das conversas aparentemente sem importância

As psicólogas Gillian Sandstrom e Elizabeth Dunn vêm estudando há anos o papel dos chamados “laços fracos”, que são as relações que mantemos com conhecidos e com pessoas que encontramos em nosso cotidiano, mas que não fazem parte do nosso círculo mais íntimo.

Em um estudo publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, elas encontraram associações entre essas interações cotidianas e maior sensação de pertencimento e bem-estar.

Outro experimento das pesquisadoras é especialmente interessante para essa discussão. Participantes foram orientados a comprar uma bebida em uma cafeteria de duas maneiras diferentes. Um grupo deveria tornar a interação com o atendente o mais eficiente possível. O outro deveria transformar aquela compra em uma pequena interação social, sorrindo, fazendo contato visual e tendo uma breve conversa.

As pessoas que tiveram essa pequena interação relataram mais emoções positivas e maior sensação de pertencimento. Ou seja: aquela conversa aparentemente irrelevante com alguém que encontramos na padaria ou na cafeteria pode não ser tão irrelevante assim. E comecei a pensar no quanto isso também se aplica ao ambiente de trabalho.

Podemos trabalhar juntos e conversar muito pouco

No trabalho, podemos trocar dezenas ou centenas de mensagens com uma pessoa ao longo de uma semana sem praticamente conversar com ela. E-mail, WhatsApp, Teams, Google Chat, Slack, comentários em documentos, sistemas de gestão de projetos e, agora, ferramentas de inteligência artificial (IA) ajudam a acelerar e organizar nossas trocas.

Para muitas situações, isso é ótimo. No entanto, uma mensagem escrita também nos permite controlar muito mais a interação. Podemos pensar, apagar, reescrever, adiar a resposta e até pedir para uma IA encontrar a melhor maneira de dizer alguma coisa.

Já uma conversa exige outra coisa de nós. Precisamos escutar enquanto processamos o que ouvimos, perceber o tom e as reações do outro lado, organizar o pensamento, escolher as palavras, adaptar nossa fala, conviver com alguns segundos de silêncio, administrar nossas emoções e, muitas vezes, lidar com uma resposta que não esperávamos.

Tudo isso enquanto a interação acontece. Gosto de pensar nesse conjunto de habilidades como uma espécie de “musculatura comunicacional”. E músculos precisam ser exercitados.

Como anda nossa musculatura comunicacional?

As pequenas conversas cotidianas podem ser ótimas oportunidades de exercitar atenção, escuta, interpretação, improviso, adaptação e regulação emocional sem que sequer percebamos.

O que acontece quando precisamos dessas mesmas habilidades em uma conversa realmente importante se diminuímos essas oportunidades de interação (ou de “treino”)?

No ambiente corporativo, essa questão ganha ainda outra dimensão. Duas pessoas podem trabalhar juntas durante meses trocando essencialmente informações objetivas por canais digitais. Tudo funciona relativamente bem enquanto precisam apenas compartilhar arquivos, confirmar prazos ou informar o andamento de uma tarefa. Mas, em algum momento, elas vão discordar de algo.

É justamente em situações como dar ou receber um feedback, negociar prioridades, admitir um erro, defender uma ideia, perceber que a outra pessoa ficou incomodada ou resolver um mal-entendido que essa musculatura comunicacional tende a ser mais exigida.

E é bem provável que parte da nossa capacidade de fazer isso seja construída justamente nas pequenas interações que acontecem quando não existe um problema para resolver.

Conversas “improdutivas” também podem ser produtivas?

Esse raciocínio também me faz questionar nossa busca constante por eficiência no ambiente de trabalho. Quando olhamos apenas para o resultado imediato, interações rápidas recheadas de assuntos genéricos e sem importância podem parecer improdutivas, mas estão longe de ser.

Passei a valorizá-las ainda mais depois que um chefe meu estadunidense elogiou esse hábito brasileiro (ainda mais comum no início dos anos 2000) e me pediu para não cortar esse tipo de “introdução” ao lidar com as equipes norte-americanas da matriz. Ele mesmo me disse, na época, que esse momento era ótima oportunidade para regular as emoções para que a conversa fluísse melhor.  

Essas interações “inocentes” ajudam as pessoas a se conhecerem, perceberem como o outro pensa e reage, criarem familiaridade e acumularem um repertório relacional que pode fazer diferença quando precisarem enfrentar juntas uma situação mais complexa.

Mas, claro, não vamos romantizar toda interação presencial ou defender que a comunicação falada seja sempre melhor do que a escrita. Pessoas, situações, objetivos e necessidades de acessibilidade são diferentes, e escolher o canal adequado também faz parte de uma comunicação de qualidade. O segredo está justamente no equilíbrio.

A tecnologia tem nos ajudado enormemente a tornar a comunicação mais rápida e eficiente. Mas vale observar se, em busca dessa eficiência, não estamos também eliminando oportunidades de conversar, criar vínculos e exercitar nossa musculatura comunicacional.

Estamos nos comunicando muito, talvez até mais do que nunca. Mas talvez estejamos conversando bem menos.

Desde que li essa pesquisa, comecei a prestar mais atenção às interações ao meu redor e tenho percebido vários sinais dessa mudança no cotidiano. E, se essa tendência realmente estiver acontecendo de uma maneira mais ampla, vale a pena refletirmos sobre o que estamos deixando de exercitar quando falamos menos uns com os outros.  


Referências